Old but gold!
Clássico dos jogos do site Super Interessante tem como personagens os filósofos mais famosos de todas as épocas!
Imagine uma luta entre Santo Agostinho e Nietzsche haha!
http://super.abril.com.br/multimidia/filosofighters-631063.shtml
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Xanel n°5 - O Teatro Mágico
Fernando Anitelli! Perfeito, sim ou claro?
A minha TV tá louca, me mandou calar a boca e não tirar a bunda do sofá.
Mas eu sou facinho de marré-de-sí, se a maré subir eu vou me levantar.
Não quero saber se é a cabo nem se minha assinatura vai mudar tudo que aprendi,
Triste o fim do seriado, um bocado magoado sem saber o que será de mim.
A minha tv não se conteve
Atrevida passou a ter vida
Olhando pra mim.
Atrevida passou a ter vida
Olhando pra mim.
Assistindo a todos os meus segredos,
minhas parcerias, dúvidas, medos,
Minha tv não obedece.
minhas parcerias, dúvidas, medos,
Minha tv não obedece.
Não quer mais passar novela, sonha um dia em ser janela e não quer
mais ficar no ar.
Não quer papo com a antena nem saber se vale a pena ver de novo tudo que já vi.
Não quer papo com a antena nem saber se vale a pena ver de novo tudo que já vi.
Vi.
A minha TV não se esquece nem do preço nem da prece que faço pra
mesma funcionar.
Me disse que se rende a internet em suma não se submete a nada pra me informar.
Me disse que se rende a internet em suma não se submete a nada pra me informar.
Não quis mais saber de festa não pensou em ser honesta funcionando
quando precisei.
A notícia que esperava consegui na madrugada num site, flick, blog, fotolog que acessei.
A notícia que esperava consegui na madrugada num site, flick, blog, fotolog que acessei.
A minha TV tá louca, me mandou calar a boca e não tirar a bunda do sofá.
Mas eu sou facinho de marré-de-sí, se a maré subir eu vou me levantar.
Não quero saber se é a cabo nem se minha assinatura vai mudar tudo que aprendi,
Triste o fim do seriado, um bocado magoado sem saber o que será de mim.
Ela não SAP quem eu sou,
Ela não fala a minha língua.
Ela não fala a minha língua.
Não.
"Enquanto pessoas perguntam por que, outras pessoas perguntam por que não?
Até porque não acredito no que é dito, no que é visto.
Acesso é poder e o poder é a informação. Qualquer palavra satisfaz. A garota, o rapaz e a paz quem traz, tanto faz. O valor é temporário, o amor imaginário e a festa é um perjúrio. Um minuto de silêncio é um minuto reservado de murmúrio, de anestesia. O sistema é nervoso e te acalma com a programação do dia, com a narrativa. A vida ingrata de quem acha que é notícia, de quem acha que é momento, na tua tela querem ensinar a fazer comida uma nação que não tem ovo na panela que não tem gesto, quem tem medo assimila toda forma de expressão como protesto."
"Enquanto pessoas perguntam por que, outras pessoas perguntam por que não?
Até porque não acredito no que é dito, no que é visto.
Acesso é poder e o poder é a informação. Qualquer palavra satisfaz. A garota, o rapaz e a paz quem traz, tanto faz. O valor é temporário, o amor imaginário e a festa é um perjúrio. Um minuto de silêncio é um minuto reservado de murmúrio, de anestesia. O sistema é nervoso e te acalma com a programação do dia, com a narrativa. A vida ingrata de quem acha que é notícia, de quem acha que é momento, na tua tela querem ensinar a fazer comida uma nação que não tem ovo na panela que não tem gesto, quem tem medo assimila toda forma de expressão como protesto."
Inconstância Pragmática
Alienação, controle da mídia e submissão ideológica já se tornaram parte do vocabulário usual de textos encontrados na internet, mas frente às inúmeras crises (econômicas, culturais, políticas, e etc) da atualidade é realmente necessário ter consciência das falhas morais da sociedade. Não é preciso nem mesmo sair de casa para contemplar a frivolidade que invade a sanidade de todos, basta abrir alguma rede social e coisas típicas de um consumismo catastrófico irão (pop-up!) explodir na sua cara!
Desde a Revolução Industrial a humanidade desenvolveu conhecimentos e tecnologias extremamente rápido, e depois da revolução tecno-científica isso ficou ainda mais claro, com a violenta globalização a velocidade de informações se reduziu a segundos e mudou seu endereço de "pontos distântes e distintos" para a onipresença e a onipotência de estar em todos os lugares, hoje, tornando-se onisciência (com a internet) por se solidificar em forma de uma rede que é tecida com informações de diversas partes do mundo que não são emitidas por uma só voz, ou um grupo delas (como a televisão) e sim por várias.
Acontece que mesmo constando em nossa linha evolutiva um desenvolvimento tecnológico sem precedentes o ser humano parece estar inapto a acompanhar saudavelmente todo esse "superávit" científico, seria adequado, para toda essa sofisticada maquinaria high-tech funcionar de fato, uma compreensão e discernimento do que é realmente necessário e do que é apenas supérfluo, coisa que nunca foi feita, visto que tecnologia como conhecemos é muito recente. O caráter passivo, consumista e fleugmático que a maioria adquiriu é proveniente de uma supravalorização do inerte, uma adoração bombeada através das artérias de um sistema doente. Abdicamos de liberdades e ainda assim vivemos em "Bellum Omnium Contra Omnium" que é nada mais que essa contemporânea competitividade (seja comercial, econômica, cultural, política, estética, existencial...Tudo!) somada à esta confusão de más políticas, crises econômicas e guerras mascaradas.
Este moralismo poroso em que nos sustentamos, discursos-clichês e ultrapassados, e ideologias não construídas mas sim herdadas (ideias já mastigadas pelos pais) fazem desta geração uma geração de uma maioria desprovida de críticas conquistadas, vivemos então no completo abismo da ignorância em que os ecos são o conformismo. "Capacidade de Adaptação Humana" (essencialmente teórica) deveria ser apenas biológica, não psicológica como a que potencializa o comodismo. Esta capacidade mental de adaptação, mesmo frente a injustiças e atrocidades, fazem de nós uma massa inconstante, só que com o aspecto moralista de um engomadinho reacionário dos anos 50. Estilo de vida um tanto paradoxal, não? Inconstante (ou moralmente inconsistente), porém conservador, moderno, mas tradicionalista.
A fusão de uma até então sólida sociedade pode resultar na perda de valores familiares e emocionais inclusive, caminhamos para o individualismo extremo ou como Marx e Engels mencionam n'O Manifesto do Partido Comunista":
"A burguesia despojou de sua aura todas as atividades até então consideradas com respeito e temor religioso. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência, em assalariados por ela remunerados. A burguesia rasgou o véu da emoção e de sentimentalidade das relações familiares e reduziu-as a mera relação monetária."
Acrescento, para evitar a generalização, a ausência crítica existe em todos os lugares e ainda paira sobre a maioria, porém há sempre (felizmente) uma parcela da população que torna a questionar. Só para complementar, coloquei um vídeo acima, é interessante, vale a pena assistir! Este faz parte de uma reportagem feita pela Globo News no começo deste ano, é uma análise aprofundada sobre a Crise Européia, envolvendo conceitos como "Sociedade Líquida" do sociólogo Zigmunt Bauman (é, pois é, tô falando dele de novo, não me xinguem) e contando com a palavra de vários economistas [e do próprio Bauman!].
Mas de onde surgiu tudo isso? Minha crítica seria infundada se eu aqui não expusesse os fatos como eles são. De onde viria então essa propensão anormal à crises? Essa cegueira crônica de analisar a realidade e a mudez de questioná-la? Então um brevíssimo mergulho na história.
sábado, 11 de agosto de 2012
Parênteses
Estive relendo esse blog e me dei conta de que há algumas coisas ditas que de alguma forma sinto vergonha. A explicação mais plausível pra isso é o fato deste blog ter sido criado em 2009, quando eu era garota desinformada e inconsequente de 12 anos e não alguém pensando em vestibular, caçando livros como um zumbi persegue cérebros, procurando feiras de profissões e pesquisando palestras de programas de computador, desenho e animação. Me pergunto se estarei eu perdendo a singeleza com que uma criança vê os fatos e virando [isso é claro, mas o problema é virar:] um alguém rígido, sem tolas alegrias e de difícil sorriso...er.
Não! E Pelas botas de Merlin! É bom assim! Agradeço aos deuses que deixei de ser aquela menina idiota [ou será que não?Socorro]. Pensar "Caramba, como escrevi isso?" é deprimente, contudo, diferente do que falam por aí sobre "crescer", eu, pelo menos, não perdi o riso fácil! Não ainda! Haha! Mas de qualquer maneira, resolvi não deletar as postagens, creio que, futuramente, gostarei de analisar a evolução [ou involução] das minhas ideias, espero que eu [novamente] não fique com o rosto mais vermelho do que estou ao ler as porcarias que escrevia!
Ah, se julgar algum artigo ridículo demais, por favor dê uma olhada no ano de publicação.
Não! E Pelas botas de Merlin! É bom assim! Agradeço aos deuses que deixei de ser aquela menina idiota [ou será que não?Socorro]. Pensar "Caramba, como escrevi isso?" é deprimente, contudo, diferente do que falam por aí sobre "crescer", eu, pelo menos, não perdi o riso fácil! Não ainda! Haha! Mas de qualquer maneira, resolvi não deletar as postagens, creio que, futuramente, gostarei de analisar a evolução [ou involução] das minhas ideias, espero que eu [novamente] não fique com o rosto mais vermelho do que estou ao ler as porcarias que escrevia!
Ah, se julgar algum artigo ridículo demais, por favor dê uma olhada no ano de publicação.
sábado, 14 de julho de 2012
Necrópole
Os sons dos ébrios ressoavam como orquestra pelas ruelas
daquela cidade sem luz, gritos de volúpia e prazeres proibidos sussurravam por
entre as pedras gélidas como agouros que só o insano ouve em tempos flébeis. Um
amontoado de trapos transitava entre os moribundos e abstêmios que jaziam
imóveis na calçada, selados em um sono cândido, os olhos cerrados em uma
inocência sublime que apenas os sonhos fazem gente como aquela parecer. A sombra
maciça andava em um curioso passo irregular, como que coxa, curvada sobre o
peso do tempo e do manto no qual se escondia. Os lábios que um dia foram volumosos
e de um rubro lascivo enegreceram como uma pétala morta e se resumiam a um fino
traço débil que balbuciava desesperos, nada mais que uma velha insana. A louca
da rua, como chamavam os moradores locais, uma mendiga qualquer, como pensavam
os transeuntes com desagrado e desprezo.
Ela procurava entre os rostos algum familiar com o que restava de sua consciência e de sua memória ainda latente, era pouco sã, mas o desespero a mantinha firme em sua procura infindável. "Perdera a família", assim comentavam as mulheres, aos sussurros, nas cozinhas e janelas. O que a vida lhe dera fora infortúnio, logo restava ela, insana, naquelas ruas natimortas, provavelmente horrendas e encardidas desde o primeiro tijolo. Havia dois anos que ela chegara à vizinhança, murmurando frases incoerentes, rezando para um deus qualquer e sempre fazendo o mesmo percurso. Ao que parecia procurava o filho e o marido desaparecidos, lembrava de gritos, de explosões, de um caos perturbador e de tentar manter a família unida, não dera certo. Recordava de seu filho, sorriso fácil e terno riso, e seu marido, valente e inconseqüente, “fique, eu voltarei logo, não saia daqui”, ele falara.
Seu olhar vago esquadrinhava os rostos, minuciosamente, sempre alertas. Até que reconhece as madeixas castanho-escuras de um homem que dormia de bruços sob um manto de trapos marrons, se aproxima, na esperança de finalmente encontrá-lo, "será?" Seu coração palpita, o sangue beija-lhe a face em um acorde de alegria, um sentimento acolhedor intumesce em seu peito, estende a mão ossuda para afastar o cobertor do rosto do filho, e então seu sorriso desfalece, vê traços brutos e agressivos, mas não a singeleza como na face de seu rebento, em um eflúvio de desgosto, cega em seu ódio mudo ela caminha rapidamente em seu passo ridículo para o fim da rua, uma garrafa a atinge, xingamentos e vaias a acompanham, não se importa, continua andando sobre as pernas rígidas, uma maldita dor pungente.
Em sua raiva nua, adentra em um campo-santo, arfando ela procura suas esperanças naquele lugar sombrio, olha ao redor com olhos faiscando, desata a procurar o nome dos familiares nas lápides, deseja estar errada, mas parecia essa sua última tentativa, estava velha e cansada e um dia cairia sobre seus joelhos doloridos, nada tinha em mente, a memória lhe traíra e sentia sua sanidade se esvaindo. Assim amanheceu e continuara procurando, era essa sua última lembrança nítida.
A velha louca desbravava o sepulcrário. E o jovem coveiro que ali trabalhava nada tinha a fazer a não ser se apiedar e deixá-la ficar ali, afinal, ela sequer depredava o patrimônio, ele sentia pena. Era visível que a cada dia ela enlouquecia mais, por vezes tentava correr, mancando estupidamente, e, de repente, petrificava-se, encarava a orla do bosque que cercava o cemitério e permanecia assim durante horas, como que em transe. Obcecada em sua busca recusava até a comida que o jovem lhe trazia, ela nunca olhava em seus olhos, nem ele nos dela, seu rosto estava coberto por aquele manto negro e fétido, o rapaz conseguiu observar que ela babujava enquanto murmurava aquelas palavras estranhas. Ajustava o boné cinza do uniforme e se dirigia para sua cabana.
Ela procurava entre os rostos algum familiar com o que restava de sua consciência e de sua memória ainda latente, era pouco sã, mas o desespero a mantinha firme em sua procura infindável. "Perdera a família", assim comentavam as mulheres, aos sussurros, nas cozinhas e janelas. O que a vida lhe dera fora infortúnio, logo restava ela, insana, naquelas ruas natimortas, provavelmente horrendas e encardidas desde o primeiro tijolo. Havia dois anos que ela chegara à vizinhança, murmurando frases incoerentes, rezando para um deus qualquer e sempre fazendo o mesmo percurso. Ao que parecia procurava o filho e o marido desaparecidos, lembrava de gritos, de explosões, de um caos perturbador e de tentar manter a família unida, não dera certo. Recordava de seu filho, sorriso fácil e terno riso, e seu marido, valente e inconseqüente, “fique, eu voltarei logo, não saia daqui”, ele falara.
Seu olhar vago esquadrinhava os rostos, minuciosamente, sempre alertas. Até que reconhece as madeixas castanho-escuras de um homem que dormia de bruços sob um manto de trapos marrons, se aproxima, na esperança de finalmente encontrá-lo, "será?" Seu coração palpita, o sangue beija-lhe a face em um acorde de alegria, um sentimento acolhedor intumesce em seu peito, estende a mão ossuda para afastar o cobertor do rosto do filho, e então seu sorriso desfalece, vê traços brutos e agressivos, mas não a singeleza como na face de seu rebento, em um eflúvio de desgosto, cega em seu ódio mudo ela caminha rapidamente em seu passo ridículo para o fim da rua, uma garrafa a atinge, xingamentos e vaias a acompanham, não se importa, continua andando sobre as pernas rígidas, uma maldita dor pungente.
Em sua raiva nua, adentra em um campo-santo, arfando ela procura suas esperanças naquele lugar sombrio, olha ao redor com olhos faiscando, desata a procurar o nome dos familiares nas lápides, deseja estar errada, mas parecia essa sua última tentativa, estava velha e cansada e um dia cairia sobre seus joelhos doloridos, nada tinha em mente, a memória lhe traíra e sentia sua sanidade se esvaindo. Assim amanheceu e continuara procurando, era essa sua última lembrança nítida.
A velha louca desbravava o sepulcrário. E o jovem coveiro que ali trabalhava nada tinha a fazer a não ser se apiedar e deixá-la ficar ali, afinal, ela sequer depredava o patrimônio, ele sentia pena. Era visível que a cada dia ela enlouquecia mais, por vezes tentava correr, mancando estupidamente, e, de repente, petrificava-se, encarava a orla do bosque que cercava o cemitério e permanecia assim durante horas, como que em transe. Obcecada em sua busca recusava até a comida que o jovem lhe trazia, ela nunca olhava em seus olhos, nem ele nos dela, seu rosto estava coberto por aquele manto negro e fétido, o rapaz conseguiu observar que ela babujava enquanto murmurava aquelas palavras estranhas. Ajustava o boné cinza do uniforme e se dirigia para sua cabana.
Coveiro era um homem inteligente demais para estar ali, mas a
vida lhe dera desventuras como dera à maioria daquela gente de cidadela,
trabalhava arduamente todos os dias e como era um cemitério não muito extenso,
era ele o único contratado, encarregado a fazer todas as tarefas. Cavava covas
até o crepúsculo, enxugava com o dorso da mão o suor e continuava a ceifar a
terra. Não era feliz, tampouco descontente, existia. Sua cabana
ficava na orla do bosque, um
cômodo único de cores tristes e que era constantemente invadido por ratazanas.
Era um dia comum e o coveiro fora para o bosque, levando suas armadilhas e um pequeno punhal. Iria tentar afastar as malditas ratazanas. Velha Louca continuava no sepulcrário, por vezes esmurrando inutilmente as lápides, berrando agouros e praguejando contra desgraças, nada do que falava era inteligível, porém o jovem achou que estava segura, pois não estava correndo como antes, se dirigiu então à floresta. Ao longo do cemitério a velha cambaleava ao andar e sua insanidade então atingira o limite, ao ver uma lápide sentiu um desespero tão intenso que caiu sobre seus joelhos doloridos, uma dor dilacerante estrangulava-lhe o peito, como se a mão da morte apertasse com força seu coração, pendeu para um lado e tropeçou numa pedra, caindo, assim tudo escureceu.
O coveiro passara a tarde no bosque e julgava ter apanhado muitas ratazanas, ainda que sentisse pena dos animais que tivera de matar (em sua defesa) e repulsa pelo sangue que impregnava suas vestes, no entando voltava contente quando avistou no portão dois oficiais de polícia. Intrigado foi lhes perguntar se desejavam alguma coisa. Os dois militares olharam-no com desprezo e uma raiva civilizadamente contida, o rapaz não entendeu tal recepção indelicada, mas não foi preciso muito tempo para desvendá-la. Um corpo jazia no chão, o amontoado de trapos, inerte. Velha Louca deitava-se sobre a vida que lhe esvaía, o sangue derramando-se como seda ao redor de sua cabeça. O jovem se aproximou e afastou de seu rosto o manto fétido e, horrorizado, reconhecera-a. Via sua mãe. As vozes dos policiais indagavam sobre o sangue em suas roupas, mas tudo era um eco, um borrão. Sua mãe, morta e solene junto ao piso. Velha Louca envolta em seu manto de desilusões, jazendo no imundo chão da necrópole, seus olhos sublimes esquadrinhando o céu, ainda a procura de um conhecido.
Era um dia comum e o coveiro fora para o bosque, levando suas armadilhas e um pequeno punhal. Iria tentar afastar as malditas ratazanas. Velha Louca continuava no sepulcrário, por vezes esmurrando inutilmente as lápides, berrando agouros e praguejando contra desgraças, nada do que falava era inteligível, porém o jovem achou que estava segura, pois não estava correndo como antes, se dirigiu então à floresta. Ao longo do cemitério a velha cambaleava ao andar e sua insanidade então atingira o limite, ao ver uma lápide sentiu um desespero tão intenso que caiu sobre seus joelhos doloridos, uma dor dilacerante estrangulava-lhe o peito, como se a mão da morte apertasse com força seu coração, pendeu para um lado e tropeçou numa pedra, caindo, assim tudo escureceu.
O coveiro passara a tarde no bosque e julgava ter apanhado muitas ratazanas, ainda que sentisse pena dos animais que tivera de matar (em sua defesa) e repulsa pelo sangue que impregnava suas vestes, no entando voltava contente quando avistou no portão dois oficiais de polícia. Intrigado foi lhes perguntar se desejavam alguma coisa. Os dois militares olharam-no com desprezo e uma raiva civilizadamente contida, o rapaz não entendeu tal recepção indelicada, mas não foi preciso muito tempo para desvendá-la. Um corpo jazia no chão, o amontoado de trapos, inerte. Velha Louca deitava-se sobre a vida que lhe esvaía, o sangue derramando-se como seda ao redor de sua cabeça. O jovem se aproximou e afastou de seu rosto o manto fétido e, horrorizado, reconhecera-a. Via sua mãe. As vozes dos policiais indagavam sobre o sangue em suas roupas, mas tudo era um eco, um borrão. Sua mãe, morta e solene junto ao piso. Velha Louca envolta em seu manto de desilusões, jazendo no imundo chão da necrópole, seus olhos sublimes esquadrinhando o céu, ainda a procura de um conhecido.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
A Morte Da Barata
Os fogos de artifício luminosos explodem de alegria nos céus escuros do novo ano, brindes ecoam, risadas flutuam e parentes se abraçam, não é o mesmo para uma barata.
Inseto nojento, rejeitado, ninguém a quer em lugar algum, posso lhes dizer que há humanos que são assim, ou se sentem assim, mas mesmo os que o são, a rejeitam, a odeiam, sem ao menos o porquê, é apenas um inseto feio de alma inexistente que lhes desagrada tentando sobreviver.
Baratas são feias, inúteis aos olhos de todos, mas talvez deva ser levada em conta sua vida, miúda e repugnante, parasita e odiosa, ninguém lamenta sua morte, nem celebram sua vida. E ela desfalece, e morre.
Solitária, repugnante, exatamente como em vida, odiosamente feia, celebram sua morte, lamentam seu nascimento. Morre feia, odiada, sozinha, humilhada com seu sangue musgoso escorrendo entre os sulcos que há no chão frio da cozinha.
Não levando em conta que aquela barata é igual a muitas outras, odiosa como outras, feia e repugnante como tais, mas por que lhe és negado o direito do único?
Humanos são todos iguais sob distante visão, mas cada um é um, único organismo, não importa o que digam, apenas digo-lhes que é, apenas é. E muitos destes são tão odiáveis quanto baratas, mais repugnantes do que insetos e todos eles, todos, têm o potencial de prejudicar imensamente o outro. Matar, roubar, magoar, odiar. As baratas são mais dignas do que seres humanos.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Orquestra de sangue
Delira em martírios
No embrutecer da sanidade
Estridentes silvos de agonia
Ressoam pelo eco
Da fulgente claridade.
Uma sinfonia
Orquestrada por sangue
E por criminosa crueldade.
Vozes do inferno
Coros Dantescos
Gritam brutalidades.
Um tempo arcano
Todos marcam compasso
Com seus instrumentos desafinados
Nenhum acorde anódino
Como um pesadelo desesperador e amorfo.
A vingança, melódica, flui como o sangue
A raiva rufa os tambores
O ódio toca seus violoncelos
O desespero brota como flores.
Toda essa música e fuga em espelho
Como sinfonia ou simples alegretto
Envolve o mundo com suas notas
Todos os dias
E em todas as horas.
No embrutecer da sanidade
Estridentes silvos de agonia
Ressoam pelo eco
Da fulgente claridade.
Uma sinfonia
Orquestrada por sangue
E por criminosa crueldade.
Vozes do inferno
Coros Dantescos
Gritam brutalidades.
Um tempo arcano
Todos marcam compasso
Com seus instrumentos desafinados
Nenhum acorde anódino
Como um pesadelo desesperador e amorfo.
A vingança, melódica, flui como o sangue
A raiva rufa os tambores
O ódio toca seus violoncelos
O desespero brota como flores.
Toda essa música e fuga em espelho
Como sinfonia ou simples alegretto
Envolve o mundo com suas notas
Todos os dias
E em todas as horas.
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